quinta-feira, 3 de maio de 2012

Tempo, tempo, mana velha...




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Há coisas que só a maturidade traz.  Não existe ser maduro, por mais equilibrado, coerente, sensato, determinado, se você tem 20 e poucos anos, a menos que você tenha efetivamente vivido.  É a vida VIVIDA que nos torna verdadeiros homens e mulheres, que nos caracteriza como singulares, que diz aquilo que somos, que nos tira do estado letárgico tão comum no contemporâneo. E, cá pra nós, ter efetivamente vivido com 20 e poucos anos, não dá! Não há tempo cronológico nem tempo lógico, simplesmente NÃO HÁ TEMPO! É preciso uma ruga na cara, o corpo exposto, a cicatriz da derrota e a marca inigualável da vitória na alma.
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É preciso ter efetivamente vivido, pra que a vida tenha mais sentido e seja realmente aproveitada.  É preciso ter o selo da experiência pra entender que quase nada tem tanto valor quanto uma água de coco na balaustrada do porto da barra (com aquela imensidão que lhe faz sentir um nada e um tudo, ao mesmo tempo); ou quanto um picolé de amendoim da capelinha num ponto de ônibus qualquer; ou um bate-papo trivial com um menino de rua que lhe pediu um dinheirinho; ou um brinde de licor com o porteiro do prédio, no fim do plantão dele no são João, quando ele jamais esperava; ou sentar na varanda, no fim de um dia hostil de trabalho, olhar pro céu à frente e pensar nada, sentindo só o encontro de seu espírito com o cosmo; ou pedalar, do rio vermelho a humaitá, parando e registrando as maravilhas do caminho...
Convenhamos...  Ter efetivamente vivido é ter vivido o extremo de situações extremas. É ter passado fome, é ter tido a mesa farta e se perguntar ‘e agora?’.  É ter passado por uma quase-morte. É ter visto alguém querido querer se matar na sua frente. É ter perdido a pessoa mais importante e achar outra mais importante pra amar, pra que a vida vá!  É ter morrido e ter voltado! É ter sido capaz de morrer pra salvar um outro. Ter amado docemente, amargamente, com todas as agruras e júbilos dignos do verdadeiro amor.
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Ter vivido, efetivamente, é chegar à sabedoria de que aproveitar o tempo é muito mais do que correr atrás de coisas, de matérias e do próprio tempo, do que viver correndo, correndo... O tempo é atemporal, por si só. Ele é a cinza, o pó, o farelo do farelo, que está e não está, ao mesmo tempo. E definitivamente, ele não está a nosso favor.  Mas é preciso que chegue a tal maturidade. Esta mesma que, o louvor ardente à juventude, ao acompanhamento da tecnologia da informação que flui à velocidade da luz, não nos dá. Do contrário, retarda. Temos tempo pra tudo. Pra ganhar mais dinheiro, pra comprar mais coisas, pra ficar entorpecidos com as maravilhas do mundo moderno, e ficamos tão entorpecidos que não descansamos enquanto não nos fizermos parte dele...
Mas eis que vem, por fim (?), a maturidade, que, infelizmente, nesta parte ocidente do mundo, não cabe à juventude... A gente quer falar das músicas de antigamente, da poesia ou do ritmo pueril que havia nelas.  Quer falar dos filmes antigos, dos livros clássicos, quer contar dos becos, das esquinas, dos meninos correndo na rua sem carros, quer falar das nossas histórias de quando todos tínhamos tempo para o outro, das cadeiras na porta de casa, em que os vizinhos falavam amenidades, tomavam uma cachacinha saudável e ouviam alguém gritar: -vai tomar banho, menino... A gente quer falar de tudo isso, a gente quer (re)viver tudo  isso e quer ter alguém que queira compartilhar genuinamente, naquela sintonia que arrepia a pele de emoção...
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O abismo entre uma pessoa e outra não é simplesmente a diferença de gostos, ele é pagodeiro, eu não, ele come carne, eu não, ele gosta de roupa de marca e eu da avenida sete, ele tem amigos fúteis e os meus, intelectuais. O abismo mais grosseiro e mais sôfrego é o da maturidade. É o de estar mais pronto! Pronto para a vida, pronto para a morte, pronto para o amor, para a paixão, para as diferenças, por menos prontos que estejamos sempre. Mas prontos em relativo.  Prontos na medida acertada de todas as coisas. Prontos na maturidade de se dar valor ao que merece valor, à efemeridade da vida, à atemporalidade do tempo, à causalidade dos nossos atos. Na maturidade está plantada a sabedoria. Na sabedoria está plantada a paz. Na paz... Eu nem sei mais!

Eneyle Freitas Bittencourt

3 comentários:

  1. Eneyle, parabéns! Me identifiquei como esse texto. Muito bacana mesmo. Abraço

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  2. Nossa... adorei! muito bom mesmo!!

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  3. Adorei o texto. Muito bom mesmo (:

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